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A Montanha

November 25, 2025 Teresa Tomaz

“Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!
― Paul Valéry, “Le cimetière marin” / “El cementerio marino”

A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferíssemos usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
― Susan Sontag, “A Doença como Metáfora”



O horizonte é a montanha.

Fui, durante toda a minha vida, avessa à mudança. Cresci rodeada por relevos graníticos e xistosos, e esses foram, desde sempre, os limites que compuseram a minha existência. Uma muralha montanhosa, visível do prédio onde vivia, transmitia-me segurança. Quando descobri que gostava de fotografar, que o peso da máquina era também o meu peso, que a sua lente era a minha visão, dediquei-me a calcorrear o bairro, subir a muros e a imaginar ervas rasteiras, flores secas e troncos velhos como uma metáfora da vida das pessoas que labutam no vale onde nasci. Sentava-me, amiúde, num lugar conhecido como o “alto da forca”, no crepúsculo, a registar os relevos da terra e das pedras que a alcatifam, até sentir a frieza da aragem e do guiador da bicicleta que me levaria até casa, até ao meu quarto.

Foi nesse quarto que li as primeiras obras de José Luís Peixoto. Frequentei um liceu público, no ensino secundário, e era nos intervalos que, juntamente com dois amigos, nos surripiávamos à livraria local, munidos com o que poupávamos da mesada. Nessa época, eu transitava dos livros de fantasia e de ficção científica para algo indefinido, histórias que queria ler, mas que não sabia escolher. Até hoje, não sei o que me levou a pegar em “Uma Casa na Escuridão”. Eu gostava de ouvir bandas de metal sinfónico, power metal e heavy metal; talvez a pintura de Caspar David Friedrich, que mostra os portões de um cemitério, me tenha conduzido ao livro, já nesses tempos tinha o hábito de escolher uma leitura sem saber do que se tratava.

Havia, no meu quarto, uma janela que me permitia ver a casa da minha prima mais nova, o céu e as árvores. Recordo, sobretudo, a forma como o sol exibia o ventre dourado nas telhas da moradia onde a família do irmão da minha mãe residia. Amarelo, dourado, laranja, como gatos lambendo o dorso, com labaredas pintadas nas pupilas.

Fechei os olhos e procurei algo dentro de mim. Sabia-me mudada.
Mas não sabia em quê.

*

Às vezes, lembro-me de tudo.

Lembro-me: era de manhã. Acabara de me sentar, pousara as mãos na mesa. Estava frio, mas eu ainda não ligara o ar condicionado. Ouviam-se pessoas e os seus ruídos familiares, portas que se fechavam, cadeiras que eram empurradas, o compasso do início do dia. Chamei um primeiro e um último nome. Duas mãos entregaram-me um exame, que eu recebi com leveza, sem tomar o peso das palavras. Essas mãos tinham frio, deslizaram uma sobre a outra, direita sobre a esquerda e esquerda sobre a direita, os dedos entrelaçados. Existiram frases atrás dessas mãos dançantes: a esposa debilitada, o clima gelado, o prenúncio da chuva.

Dizem que, quando se ouve uma má notícia, tudo o que vem a seguir é esquecido. A personagem que Joseph Gordon-Levitt, chamada Adam, interpreta no filme “50/50” mostra-o na cena em que o médico lhe revela que tem um “tumor”. Adam reage com descrença, e é quando o médico carateriza o seu caso como “fascinante” que o som é substituído por uma espécie de zumbido, a imagem desfoca-se, subitamente clara, brilhante, quase branca.

Eu acabara de aprender o protocolo de más notícias. Sabia os passos de cor, havia treinado uma, duas, três, dez vezes, sozinha, com atores, com colegas. Não sabia, porém, que o som fino e agudo podia ser ouvido pelo profissional de saúde, como um espigão que atravessa o tímpano. Debruçada sobre o exame, deixei de ouvir o discurso, e o consultório, outrora banhado pela claridade da manhã, pareceu-me áspero, demasiado luminoso, demasiado, demasiado. Tudo isso durou uma brevidade de segundos, recompus-me, procurei os passos do dito protocolo. Perguntei o que desejava saber. Tudo. E eu disse tudo. E vi-o: o zumbido, o espigão no tímpano, a palavra a negrito.

Não foi a minha primeira má notícia. Mas foi a minha primeira má notícia.

*

“Three Oncologists” - Ken Currie (2002)

O cancro é frequentemente retratado na literatura, assim como a tuberculose o foi no século XIX e no início do século XX. São muitas as metáforas usadas para nos referirmos a ambas as doenças, e o estudo desta ligação foi relatada e analisada por diversos autores. Susan Sontag explanou-o em “A Doença como Metáfora” (publicado em Portugal pela Quetzal, traduzido por José Lima); Audre Lorde viveu-o em “Diários do Cancro” (publicado em Portugal pela Orfeu Negro, traduzido por Gisela Casimiro), assim como Rebecca Solnit em “Esta Distante Proximidade” (publicado em Portugal pela Quetzal, traduzido por José Lima). Em “As Que Não Morrem” (publicado em Portugal pela editora Tinta da China, traduzido por Miguel Cardoso), Anne Boyer reflete sobre o que rodeia a palavra “cancro” (na sociedade, no capitalismo, na desigualdade):

Uma doença que nunca se deu ao trabalho de se anunciar aos sentidos irradia na vida do ecrã, tal como a luz é som, é informação encriptada, desencriptada, circulada, analisada, avaliada, estudada e vendida. Nos servidores, a nossa saúde degrada-se ou melhora. Outrora adoecíamos nos nossos corpos. Agora adoecemos num corpo de luz.

“A Montanha”, publicado pela Quetzal, é, segundo o site oficial do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO), “um romance que integra testemunhos de doentes do Instituto, cujas histórias de vida inspiraram e deram origem às personagens criadas por José Luís Peixoto. O livro nasceu de um projeto desenvolvido em colaboração com dois profissionais do IPO do Porto, num processo de profunda escuta e sensibilidade literária. Gonçalo Paupério, cirurgião do IPO do Porto, e Eunice Silva, à data psicóloga do Instituto, foram os responsáveis por intermediar o contacto entre o autor e os doentes.” Repare-se na palavra “romance”, pois distingue-a da maioria dos livros que abordam os testemunhos de pessoas com a doença, que habitualmente pertencem ao género da não-ficção.

Este livro acompanha a história de seis pessoas : Alice, Fátima, João, Jorge, Daniel e Filipe. Mas há outra personagem, de grande importância: o Escritor, que observa, descreve o que vê, e recorda a sua própria experiência com a doença, neste caso com a doença do pai. A estrutura narrativa lembrou-me, em certas ocasiões, a de um labirinto, como se nos transportasse para a obra “Piranesi”, de Susanna Clarke. Os corredores hospitalares são, amiúde, apelidados de “labirintos”, tal como as frases dos profissionais de saúde, que confundem, edificam estátuas vestidas de jargão, ou palavras estranhas, e o seu protagonista, que escreve, procura um sentido, um caminho através das paredes caiadas de branco, onde o mar embate.

José Cardoso Pires fala-nos da “brancura hospitalar”, como José Luís Peixoto nos escreve sobre os corredores do livro que são “iluminados por lâmpadas fluorescentes, por um zumbido subtil, luz demasiado crua. (…) Há o branco dos lençóis a cobrirem-te, como há o branco do papel na margem, os lençóis são mais brancos do que o papel.” Assim, “Montanha” é também um “livro-lugar”. Na medicina narrativa, “uma dimensão do saber em que as competências narrativas permitem reconhecer e interpretar a individualidade da pessoa, do processo da doença e sofrimento”, aprendemos a analisar os espaços, destacando-se, aqui, não apenas o espaço hospitalar, do IPO, mas também a casa, a casa antes da doença, presença segura, como refere o autor, e a casa após a doença, onde está Alice, e os espaços de viagem, os países que o Escritor visita.

Há também o tempo: o tempo que antecede a doença, o tempo da doença, o tempo da convalescença, o tempo da recuperação, o tempo em cuidados paliativos. Em “A Montanha”, há também a biografia das personagens antes do diagnóstico, há o tempo passado em instituições de saúde, em casa, em espera (“contou que, com a doença, teve de aprender a esperar”).

E, não menos importante, a linguagem. José Luís Peixoto opta por usar a palavra cancro em destaque, assim: cancro. É uma decisão, acredito, pessoal. Muito já foi debatido sobre como se fala sobre o cancro, nomeadamente os seus eufemismos (“doença prolongada”) ou sobre o foco na “luta”, realçando a dicotomia entre o “vencedor” e o “perdedor”. Lieke Marsman, poeta natural dos Países Baixos, escreve, em “On Being Ill”:

Mais do que uma vez, ouvi dizer que não se deve usar a expressão “lutar contra o cancro” porque implica que aqueles que morreram não lutaram o suficiente (…) No meu caso, eu preciso da ilusão que posso influenciar a minha doença, por isso, digo a mim mesmo que é uma luta. O que é verdadeiramente injusto para aqueles que morreram de cancro é que existam pessoas que se sintam no direito de lhes dizer como devem falar da sua doença.

Esse, a meu ver, é um dos elementos mais importantes desta obra. O seu autor dá voz a seis pessoas, com seis experiências diferentes, oferendo uma janela para os seus mundos. E José Luís Peixoto brinda-nos com uma questão que, no fundo, traduz o conceito de empatia: “Como pode alguém que tem uma coisa, que nunca perdeu essa coisa, nem acredita que alguma vez poderá perdê-la, imaginar o que sente outra pessoa que não a tem, que deixou de tê-la, que nunca mais poderá recuperá-la?” Não é prescritivo, não generaliza. Humaniza.

*

Anos depois, quando nos reencontrámos, depois dos tratamentos, confessou-me: eu nunca mais consegui olhar bem para a senhora doutora, sabe, nesse dia sentei-me no carro e pus-me ali a chorar, sem saber como voltar para casa, e nunca mais olhei bem para si, se a visse na rua tenho a certeza que lhe virava a cara, é que, naquela época, olhar para si era ver um anjo da morte, e eu tinha medo que desse azar, que me viesse levar.

*

Em inglês, o protocolo de comunicação de más notícias chama-se “SPIKES”, que lembra a palavra “picos”, ou “espigões”.

*

Houve um tempo em que quis ser escritora. Roubava cadernos da empresa onde o meu pai trabalhava, cobria-me com os lençóis e escrevia na escuridão, de modo a que a minha mãe não descobrisse o engenho. De manhã, porém, não compreendia a minha caligrafia, inclinava-se para o abismo, como um foguete perdido, as palavras lembrando rochas que se escapuliam pela montanha, caíam como caímos em sonhos, perdidas no abismo do esquecimento.

Houve um tempo em que quis ser escritora.

Houve um tempo em que me tornei médica.

Falta uma frase entre ambas. Mas não sei qual é.

*

Na sessão de apresentação de “A Montanha”, os seus intervenientes - o médico Gonçalo Paupério, a psicóloga Eunice Silva, e o escritor José Luís Peixoto - falam sobre procurar um sentido na doença. A palavra “sentido” é repetida várias vezes, é importante e enche a sala.

Arthur W. Frank escreve, em “The Wounded Storyteller”, que “pensar com as histórias significa juntarmo-nos a elas”. As histórias dos outros não se tornam as nossas histórias biográficas, mas conseguimos ligar-nos a elas, ressoam no nosso interior. As narrativas sobre as doenças - em particular, “A Montanha”, que é um conjunto de várias histórias - permitem devolver a voz às pessoas que as vivem, ao invés de residirem unicamente com os profissionais de saúde. Isso, de certo modo, é a premissa do cruzamento da literatura com a medicina: fornece um testemunho, permite ver, olhar, escutar, criar um sentido. Pois, como diz Arthur W. Frank, “as histórias que as pessoas ouvem moldam as histórias que contam sobre si próprias.” São testemunhas e testemunhos.

*

Na doença, pegamos numa esferográfica, como o meu avô fazia, perante uma tela vazia, gravando-lhe os primeiros esboços. A tela áspera e branca enchia-se de gatafunhos e de borrões de carvão, que o meu avô, com a ponta do dedo, espalhava pelos contornos, criando sombras. Depois, o meu avô levantava-se, dava dois passos atrás, observava a obra, corrigia, pegava numa tábua velha e começava a pintar. Eu admirava o seu processo, questionava-me como conseguiria ele ocultar as linhas escuras e criar imagens coloridas, paisagens transmontanas e minhotas, frutas e flores sobre mesas, pétalas caídas no chão, retratos de pessoas anónimas. Ele ensinou-me que não podemos ser muito rígidos com as linhas, pois elas misturam-se, e ainda que exista a delimitação do antes (lápis) e do depois (tintas), esta esbate-se para criar algo novo, uma imagem diferente da primeira e distante da ideia da segunda.

Penso muitas vezes nesta imagem: o antes e o depois, o reino dos saudáveis e o reino dos enfermos, a fronteira que separa estes dois países, o mundo no sopé ou no topo da montanha. No que se mistura, e no sentido que dali surge. No papel do pintor, semelhante ao do escritor. No papel do profissional de saúde. No papel de quem observa. E nos papéis misturados, como um sorteio.

Ninguém sabe o papel que lhe irá calhar.

*

O horizonte é a montanha.

Ouvi ou li, algures, que somos, em parte, os livros que lemos. Possuímos um espólio pessoal de obras, uma biblioteca interior, que cuidamos. Varremos o pó, passamos os dedos pelas capas, relemos passagens, transcrevemos algumas para um caderno, acariciamos as letras, o significado de certas frases. Recordamos onde estávamos quando lemos aquela epopeia, a música que ouvimos quando declamámos aquele poema, as emoções que despertaram em nós depois daquela narrativa repleta de personagens, ambientes, cheiros, sensações.

Estava na livraria Centésima Página, em Braga, quando vi a capa de “A Montanha”. Mais uma vez, não sabia nada sobre a sua conceção, a sua história. Quando percebi que se tratava de um livro que retratava a doença e a dolência, comecei a lê-lo como profissional de saúde. Depois, comecei de novo, quis ler distanciada da profissão, apenas como uma pessoa não ligada à área, uma leitura comum. Depois, comecei de novo, quis ler como alguém que aprecia as palavras, que já quis ser escritora. Depois, comecei de novo, quis ler como a adolescente que abriu “ Uma Casa na Escuridão”, lá na terra atrás da montanha.

E, depois, simplesmente fui todas essas pessoas, o esboço misturado com as tintas, fragmentada, mas inteira. Fui a frase do meio, que separa os dois tempos, os dois mundos, as duas narrativas.

Fechei os olhos e procurei algo dentro de mim. Sabia-me mudada.
Mas agora sabia em quê.

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Gatos comuns

October 17, 2024 Teresa Tomaz


As notícias que ficarão gravadas na alma chegam sempre através de um telefonema.

Há telefonemas que se assemelham a tempestades. Anunciam-se, trazem um nome no ecrã luminoso do aparelho. O som que o telemóvel projeta é agudo, o corpo estremece e, de repente, estamos no olho do ciclone. A perda é assoberbante - mas é também o que nos nutre. Alimenta-nos de palavras, que purgamos como a fisiologia nos comanda. E paralisa-nos como veneno.

Escrevo para sair do olho da tempestade. Mas, mesmo quando abandonamos o epicentro da violência, há minúsculos estilhaços de vidro que carregamos debaixo da pele e que sentimos como agulhas, ainda que os médicos decretem que as radiografias não revelaram objetos estranhos, está tudo na nossa cabeça, a dor, a estranheza, e que o enfermeiro execute o tratamento com lentidão, sabendo que há dores que não se expurgam, e o médico nos mande embora com um antibiótico na mão, não vá a ficção infetar.

***

Naquele dia, segunda-feira, sete de outubro, não existiu claridade. A tempestade havia sido anunciada nos noticiários, nas redes sociais e nas bocas dos cidadãos que, em vez de moedas, trocavam lamentos antes de se ouvir o primeiro rugido do céu.

Chamaram-lhe “Kirk”.

Aprendo que há uma lista de nomes para tempestades e ciclones que ocorrem por ano. Criadas em 1953, estas listas são reutilizadas a cada seis anos. Em 2024, “Kirk” é o décimo primeiro da lista. Estudo os restantes nomes. Em 2027, o nome “Teresa” está reservado como décimo nono para os eventos ocorridos no oceano Atlântico. Quando as tempestades são demasiado destrutivas, o nome é retirado da lista e não é mais atribuído.

Pergunto-me como seria se, na realidade, eliminássemos nomes da nossa vida quando são demasiado destrutivos. Talvez, dessa forma, eliminássemos tudo o que nos provoca dano através do exílio de um nome. Em “Um Feiticeiro de Terramar”, de Ursula K. Le Guin, o nome “verdadeiro” das personagens, nome esse que é escondido da maioria das pessoas, torna-as vulneráveis. E, ao mesmo tempo, conhecê-lo é uma prova de afeto, de intimidade. De amor.

***

Encontrámos uma gata abandonada a sete de outubro. Era muito pequena, o seu corpo parecia uma pérola abandonada num esgoto. Foi assim que a vi, em pleno túnel da Avenida da Liberdade, agarrada a uma sarjeta. Tentei apanhá-la, mas a bichana escapuliu-se e escondeu-se nas entranhas do nosso carro. Uma hora e alguns minutos depois, embrulhei-a numa toalha e levei-a para casa.

O gato que adotámos em 2014 faleceu há um ano. A minha mãe, o ser humano mais próximo do animal, carregou o luto como quem se enrola numa manta pesada. Eram muito próximos, partilhavam a cama, a cozinha, as lidas da casa, as lágrimas e as alegrias. Foi o nosso segundo gato. Chamei-lhe Yuki, porque, apesar de não ser branco como a neve, parecia que tinha rebolado sobre tinta branca à nascença. Era a preto e branco, como os filmes que passavam na televisão de madrugada e que nem ele nem a dona viam, adormecidos no sofá. Viveu dez anos, e morreu inesperadamente, após meses com uma doença desconhecida que lhe provocava convulsões e lhe levou quase um quilograma do corpo.

Não pedi à minha mãe que ficasse com a gata. Porém, dadas as circunstâncias, e como temos, em casa, dois gatos que estão ainda a aprender a conviver um com o outro, ela aceitou adotá-la. Talvez seja um sinal, digo-lhe. Um bom ou mau, pergunta-me. E eu repito que é um sinal bom, como uma oração; afinal, as pessoas procuram no mundo peças que o ordenem.

Horas depois, a veterinária pergunta-nos que nome queremos dar ao animal. Chamamos-lhe Libby, porque é o mais parecido que encontramos com “Liberdade”, o nome do túnel onde a encontramos. O resgate conduziu-nos a este momento. A médica insere o nome no computador, formaliza a adoção. Compramos os objetos e utensílios necessários, e eu despeço-me da gata, sabendo que tudo está em ordem, valeu a pena as horas de resgate, digo para mim própria. Como uma oração.

***

Consulto novamente a lista e aprendo que existiu um tufão chamado “Libby”, no Japão, em 1948. Aumentou de intensidade e atingiu o pico no início de outubro. Foi considerado extinto no sétimo dia desse mês.

***

Nori.

O quarto onde escrevo tem uma janela grande, que me permite ver as árvores, os prédios, os carros que estacionam, inadvertidamente, numa rua estreita, o jardim que separa o meu apartamento dos outros. Lembro-me que, certo dia, vi, dessa mesma janela, uma gata a brincar na relva do jardim. Soube logo que era uma gata, talvez pelo seu tamanho, tão pequena, uma mancha negra a trautear pelas gramíneas. Fiquei a observá-la, aninhada, atenta aos movimentos pretensiosos dos melros que, ignorando o pequeno mamífero, debicavam pedaços de bolachas que os estudantes deixam cair.

A partir de então, passei a ver a gata com frequência.

Os gatos de rua têm nome? Sacha, Bimba, Piqui, Luna, Bichana. Os gatos de rua têm todos os nomes do mundo e não respondem por nenhum. Desviam-se das letras como quem se desvia de poças com água estagnada e, se tocados por elas, sacodem o corpo, libertando-as no horizonte. Mas, quando desço a rua, se a chamo com a onomatopeia que a minha avó usava, tal flautista de Hamelin, ela corre até mim, esfrega-se nas minhas pernas como quem diz

demoraste.

Debatemos sobre se devemos ou não adotar a gata. Ordenamos argumentos a favor e contra. O gato que adotámos em 2020 poderá não se adaptar. A esperança média de vida dos gatos de rua é menor. A gata pode ter doenças e transmiti-las ao nosso gato. Pode ser atropelada. Os vizinhos dão-lhe comida e ela parece feliz.

Sushi.

Dedico-me, durante um ano, a alimentar a gata que ronda o apartamento. Não sou a única - existem vários recipientes com comida e água, caixas de cartão com mantas. Dizem-me, enquanto troco a água, que houve quem já a tentasse levar para casa, mas não se adaptou. Pertence à rua, dizem-me. E eu afago-lhe o pelo e convenço-me que é o melhor.

Certo dia, a gata adoece. Os seus movimentos tornam-se mais lentos, o olho esquerdo enche-se de pus, as costelas tornam-se mais visíveis. Não protesta quando a levamos à veterinária. Fazem-lhe testes, retiram-lhe sangue, fotografam-lhe os pulmões. Não há diagnóstico. Damos-lhe medicamentos, estabelecemos um horário para verter as gotas no olho mirrado da bichana, construímos uma casota de cartão que colocamos nas escadas do prédio, somos ajudados pelos vizinhos. Até que, um dia, a sua íris dilata e desmaia na rua, o corpo repleto de lesmas intumescidas.

Eis, então, a morte.

A gata é internada. Alertam-me que a sobrevivência não está garantida. Caminho para casa, observo a folhagem tenra das árvores. Não peço nada a ninguém, apenas a mim própria. Lembro-me que, quando era criança, me explicaram a importância de rezar e de falar com Deus, sobretudo se queríamos que Ele nos escutasse. Mais tarde, na faculdade de medicina, explicaram-me que, se estudasse com afinco e decorasse todas as páginas dos tratados, iria conseguir salvar pessoas. Deus e a ciência pareciam dar ordem à vida - e, em alguns casos, afastar a morte. Bastava ter convicção na repetição.

***

Não dou ordens a Deus. Não trabalho em situações de emergência. Não crio uma ordem através de orações ou de protocolos de atuação imediata. Durante muito tempo, tentarei juntar palavras e formar frases para ordenar pensamentos e emoções.

***

A gata (chamamos-lhe Nori) sobrevive. Formalizamos a adoção enquanto recupero de uma cirurgia. Vem-me à cabeça a expressão “Deus escreve direito por linhas tortas.”

***

As notícias que ficarão gravadas na alma chegam sempre através de um telefonema.

A minha mãe anuncia-me a morte da Libby. Era muito pequena, não sobreviveu a uma infeção. Segundo a veterinária, os gatos de rua, quando são muito jovens, têm vários problemas de saúde. Há desordem no seu telefonema. O luto é uma desordem. Vem-me à cabeça as palavras da realizadora Catarina Vasconcelos. Nunca percebi as fases do luto de Elisabeth Kübler-Ross. Essas fases sempre me falharam. Talvez isto seja uma tentativa de ordenar o que é impossível de ser ordenado.

Digo, para mim mesma, que já sofri coisas piores. Pessoas que morreram, animais que partiram e que estiveram mais tempo connosco. A Libby viveu pouco tempo. Mas, algures numa aurícula, ficou tatuado o resgate da gata que chegou a ter um nome, em plena tempestade “Kirk”. Dizem-me que o importante foi não ter morrido na rua, e sim sem sofrimento, num lugar quente, confortável. Sinto-me hipócrita, reles. Há tantos seres vivos que morrem diariamente, que para mim são anónimos, mas cujas vidas importaram, tiveram um nome. O que fiz eu por eles? Nada.

Os dias continuam a passar, ordenadamente, primeiro sexta-feira, depois sábado, depois domingo. O sofrimento continua. É um pano de fundo num outono quente.

***

Estou sentada numa cadeira da livraria, prestes a assistir ao lançamento de um livro de poesia. Ouço a escritora que se prepara para apresentar o autor da obra, que escreve “sobre a perda”. Sobre a identidade. Sobre a memória.

Não consigo prestar atenção à sessão. Mal chego a casa, abro o livro de Joana Estrela, “Gato Comum”. As páginas amarelas parecem ondas, perderam a sua aparência lisa, porque a humidade se entranhou nas ilustrações e nas letras durante a primeira leitura. O luto é um lugar húmido, penso, capaz de vergar qualquer objeto. Pouso o livro na mesa e releio-o uma segunda vez.

Aliso a toalha, os seus vincos lembram-me vasos sanguíneos tortuosos, apago-os, uma, duas e três vezes. Há muito que não coloco objetos na mesa, receio que os gatos derrubem jarras, como nos vídeos que povoam a internet, cuja graça é apenas destinada a quem, à distância, se ri com o comportamento felino, repetido em dezenas de segundos empilhados. Mas hoje decido deixar o livro sobre a mesa. Um livro não se parte.

Procuramos uma ordem nos lugares que povoamos. Mas é a desordem que toma parte da nossa existência, povoa os lugares onde vivemos. É preciso aceitar a desordem. É preciso aceitar, digo, quando chego à parte em que o gato da história morre.

***

“Leslie” é o nome da nova tempestade. As ruas da cidade ainda estão repletas de vestígios do “Kirk”: corpos de árvores tombados, caixotes do lixo caídos, folhas e detritos no pavimento, buracos escavados no chão. O trânsito força-nos a entrar pelo túnel da Avenida da Liberdade. Passamos pelo local onde vislumbrei a Libby pela primeira vez. Uma gata de pelo branco e três manchas negras no focinho, a cauda escura. Ronronou quando foi afagada pela veterinária. Brincou com uma pequena bola de tecido quando esperava pelo raiar do dia. Enroscou-se numa manta. Viveu, e depois morreu. Tal como uma tempestade. Tal como uma vida comum. Como um gato comum. Como tantos gatos comuns.





















































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